
Terceirizar o controle da jornada do motorista não elimina a responsabilidade da transportadora
15 de janeiro de 2026O controle de jornada de motoristas virou um risco invisível nas operações de transporte. Muitas transportadoras tratam o tema como secundário, até que o primeiro processo trabalhista ou fiscalização bate à porta. E quando isso acontece, o impacto financeiro pode ser devastador.
Em uma live recente sobre o tema, o diretor do ATS Jornada, Ednei Rebonatto, e o advogado especialista em transporte, Dr. Rodrigo Salerko, alertaram:
“A jornada de trabalho é a espinha dorsal da operação. Quando essa base está frágil, toda a estrutura corre risco.”
Ser uma pequena empresa não significa que está protegida
Um dos equívocos mais comuns no setor é acreditar que processos trabalhistas são problemas apenas de grandes transportadoras. A realidade é exatamente o oposto.
“O passivo trabalhista é pior para o pequeno transportador do que para o grande”, explica Ednei. “Uma transportadora com 5, 10 ou 15 caminhões que enfrenta um passivo de R$ 1 milhão tem um impacto muito mais significativo no caixa e na capacidade de investimento.”
Para colocar em perspectiva: um processo trabalhista médio relacionado a jornada custa entre R$ 120 mil e R$ 150 mil. Para uma pequena transportadora, isso pode representar o valor de metade de um caminhão ou comprometer seriamente o capital de giro.
A mensagem é que controle de jornada é necessário desde quem tem um único motorista até quem tem 3 mil colaboradores. O risco é o mesmo, mas o impacto financeiro proporcional é ainda maior para os menores.
A quem se aplica a Lei do Motorista
A Lei 13.103/2015, conhecida como Lei do Motorista, se aplica a todos os motoristas profissionais empregados. Não importa o tamanho da empresa, o tipo de carga transportada ou a região de atuação.
A lei abrange:
- Motoristas de transportadoras de cargas.
- Motoristas de transportadoras de passageiros.
- Motoristas de empresas com frota própria que fazem suas entregas.
- Motoristas autônomos.
- Qualquer profissional que exerça a função de motorista com vínculo empregatício formal.
E outro detalhe é que embarcadores também têm responsabilidade. Eles não podem autorizar que um motorista inicie uma viagem sem ter cumprido as 11 horas de descanso obrigatórias, e as janelas de entrega devem ser compatíveis com o cumprimento da legislação.
Os três pilares do controle efetivo
Um erro comum é acreditar que comprar um sistema resolve o problema. Não resolve.
“O transportador acha que vai comprar um software e pronto, está protegido”, explica Ednei. “Mas controle de jornada precisa de três pilares: processos, pessoas e tecnologia. Se um desses pilares estiver fraco, o controle não funciona.”
1. Processos claros
É fundamental ter processos bem definidos:
- Como e quando o motorista deve fazer marcações.
- Quem é responsável pelo acompanhamento diário.
- Como são feitas as correções quando necessário.
- Qual é o procedimento para situações atípicas.
- Como são tratadas as exceções.
Sem processos claros, mesmo o melhor sistema não funciona.
2. Pessoas engajadas
O motorista precisa entender por que está marcando a jornada.
“Quando o motorista entende que o registro correto protege os direitos dele e garante pagamento justo, ele colabora naturalmente”, destaca Dr. Salerko.
A equipe interna também precisa estar treinada, RH, operação, gestores de frota. Todos devem compreender a importância e saber executar os processos.
3. Tecnologia adequada
O sistema deve:
- Ser fidedigno e atender à Lei 13.103/15.
- Gerar registros auditáveis.
- Permitir acompanhamento em tempo real.
- Facilitar correções quando necessário (mas mantendo rastreabilidade).
- Gerar relatórios completos para fechamento e fiscalizações.
“A tecnologia sozinha não resolve, mas sem tecnologia adequada, você não consegue escalar o controle”, pondera Ednei.
Os erros mais comuns (e mais caros)
1. Controle automático
Alguns sistemas prometem controle automático baseado apenas em rastreamento. Isso não é permitido pela legislação.
A Lei 13.103/15 estabelece que o motorista deve fazer as marcações. O controle automatizado é proibido e pode ser considerado inválido em processos trabalhistas.
2. Correções manuais excessivas
Se mais de 10% da jornada está sendo corrigida manualmente, há um problema.
“Ajustes manuais constantes são um risco grave”, alerta Dr. Salerko. “Em fiscalizações e processos, esses ajustes são vistos como não confiáveis. O juiz vai questionar: se precisa tanto ajuste, o registro é fidedigno?”
3. Monitoramento apenas no fechamento
Conferir a jornada apenas no final do mês é tarde demais.
“Quando você só olha no fechamento, os erros já acumularam e viraram passivo”, explica Ednei. “O monitoramento deve ser diário, com correções imediatas.”
4. Ignorar o descanso efetivo
Descanso não é apenas “parar o caminhão”. É descanso efetivo, em local adequado, sem que o motorista esteja em sobreaviso.
Um motorista parado no pátio da empresa, mas podendo ser chamado a qualquer momento, não está em descanso. Isso pode ser considerado tempo à disposição do empregador.
5. Falta de documentação das correções
Quando é necessário corrigir uma marcação, isso deve estar devidamente documentado com motivo da correção, quem autorizou, evidências que justifiquem e a assinatura ou validação do motorista.
Correções sem documentação adequada são consideradas fraudulentas pelo judiciário.
O custo de não se proteger
Impacto financeiro direto
Um único processo trabalhista por jornada irregular custa, em média, entre R$ 120 mil e R$ 150 mil.
Se considerarmos valor da condenação (horas extras não pagas, reflexos, danos morais), honorários advocatícios, custos processuais e tempo da equipe dedicado ao processo.
O custo pode facilmente ultrapassar R$ 200 mil em casos mais complexos.
Impacto operacional
Além do financeiro, há impactos operacionais:
- Desgaste da equipe: RH sobrecarregado com conferências e correções.
- Perda de produtividade: tempo gasto corrigindo problemas ao invés de planejar.
- Turnover elevado: motoristas insatisfeitos com pagamentos incorretos ou jornadas excessivas.
- Dificuldade de planejamento: sem dados confiáveis, não há como fazer gestão eficiente.
Risco de imagem
Em tempos de redes sociais e transparência corporativa, grandes embarcadores estão cada vez mais atentos às práticas trabalhistas de seus fornecedores.
Uma imagem de empresa que não respeita jornadas ou direitos trabalhistas pode significar perda de contratos importantes.
Como se proteger
1. Faça uma auditoria interna
Antes de mais nada, entenda onde você está:
- Como é feito o controle hoje?
- Quantas correções manuais são necessárias por mês?
- Os motoristas estão engajados ou resistentes?
- O RH está sobrecarregado?
- Há processos claros ou cada um faz de um jeito?
2. Busque consultoria especializada
“Procure um escritório de advocacia especializado em transporte para fazer uma análise preventiva”, recomenda Dr. Salerko.
Um olhar especializado identifica riscos que podem não estar evidentes e propõe soluções antes que problemas apareçam.
3. Estruture processos
Tenha tudo documentado e um planejamento para cada ação. É importante saber quais procedimentos seguir, quem fica responsável por cada área, ter um fluxo e treinar os colaboradores a cada mudança.
4. Invista em tecnologia adequada
Escolha um sistema que atenda à Lei 13.103/15, seja certificado e auditável. Afinal, um sistema fora do padrão não é aceito nas perícias e julgamentos.
5. Treine continuamente
Treinamento não é evento único na integração. Deve ser contínuo para atualizações quando há mudanças e capacitação das equipes.
6. Monitore diariamente
O acompanhamento deve ser diário, não mensal. Conferir somente no final do mês gera atrasos e confusão na hora de fechar o ponto, além de ficar inconsistências para trás, abrindo espaço para problemas legais.
7. Documente tudo
Mantenha registros organizados:
- Marcações originais e correções.
- Justificativas documentadas.
- Assinaturas e validações.
- Comunicações com motoristas.
- Comprovantes de treinamentos.
Acordos coletivos são aliados estratégicos
Os acordos coletivos são ferramentas poderosas para adaptar a legislação às realidades específicas de cada operação.
“O STF reconheceu que o negociado pode prevalecer sobre o legislado, desde que não viole direitos fundamentais como saúde e segurança”, explica Dr. Salerko.
Isso significa que é possível negociar com sindicatos e ter flexibilização sobre determinadas normas.
Porém, é preciso ter atenção, pois os acordos coletivos devem ser elaborados por advogados especializados e não podem simplesmente ignorar a legislação. Devem buscar o equilíbrio entre necessidades operacionais e proteção do trabalhador.
Prevenção sempre custa menos
O controle de jornada não é burocracia desnecessária ou “mimimi trabalhista”. É proteção para sua empresa, para seus motoristas e para toda a sociedade.
Um motorista descansado, com jornada respeitada e direitos garantidos tem menos acidentes, é mais produtivo, fica mais tempo na empresa, colabora com os processos e não gera passivos trabalhistas.
O investimento em controle adequado é economia e proteção para o futuro.
Como bem resumiu Ednei: “A legislação é uma consequência. Estamos falando de seres humanos atrás do volante. Não é justo que embarcadores ou transportadoras peçam que esses motoristas trabalhem 18, 20 horas por dia. O controle de jornada é, antes de tudo, respeito à vida.”
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