Infraestrutura, reforma tributária, gestão de equipes, segurança e precificação. O setor enfrenta simultaneamente pressões que exigem cada vez mais dados, visibilidade e decisão rápida.
O transporte rodoviário de cargas é responsável por mais de 60% da movimentação de mercadorias no Brasil, e 2026 chegou com uma combinação de pressões que poucos momentos na história do setor reuniram ao mesmo tempo. Reforma tributária em implantação, custos operacionais elevados, instabilidade regulatória, roubo de carga ainda bilionário e uma demanda crescente por eficiência e visibilidade. Compreender cada um desses desafios com profundidade deixou de ser diferencial competitivo, tornou-se pré-requisito de sobrevivência no mercado.
Aqui vamos falar sobre 9 desafios que toda empresa de transporte está passando.
01 · Infraestrutura
Nenhum gestor de transporte inclui explicitamente em sua planilha de custos uma linha chamada “infraestrutura precária”, mas ela está lá, distribuída em combustível extra consumido em rodovias esburacadas, manutenção antecipada de pneus e suspensão, atrasos que geram multas contratuais e acidentes cujo custo total nunca é totalmente calculado.
Os números são indiscutíveis. Os custos logísticos no Brasil representam cerca de 15,5% do PIB de 2025, segundo estudo do ILOS, um percentual significativamente superior ao de economias desenvolvidas. Ao mesmo tempo, a formação bruta de capital fixo no Brasil representou apenas 16,8% do PIB em 2025, mantendo o país em um patamar historicamente baixo.
Houve avanços pontuais, a entrega da primeira fase do trecho norte do Rodoanel Mário Covas, em dezembro de 2025, representa um marco importante em São Paulo, contribuindo para desviar parte do tráfego pesado da Região Metropolitana e reduzir o tempo de deslocamento. Mas o passo estrutural ainda não acompanha o crescimento da demanda. O Brasil transportou 25% a mais em volume de carga nos últimos 10 anos, mas os investimentos em infraestrutura não acompanharam o mesmo desempenho do setor logístico.
Para o gestor de transporte, a consequência prática é que a ineficiência da infraestrutura se traduz em decisões diárias, como qual rota escolher, quando viajar, quanto reservar para manutenção, como calcular o prazo de entrega com margem de segurança. Operar bem em um país com infraestrutura irregular exige mais inteligência operacional.
02 · Reforma Tributária
O maior redesenho fiscal das últimas décadas chegou, e muitas transportadoras ainda não perceberam
A Reforma Tributária não é mais uma pauta de futuro. A partir de 2026, o transporte rodoviário de cargas entra oficialmente na era do IBS e da CBS, com a Reforma Tributária do consumo iniciando sua fase de testes e mexendo diretamente na forma como o frete é tributado, como as transportadoras precificam seus serviços e como o fiscal se relaciona com a operação.
A implementação da Reforma Tributária ocorrerá de forma gradual, com a convivência entre o sistema tributário atual e o novo modelo ao longo do período de transição, que começa em 2026 e tem vigência plena prevista para 2033, quando ocorre a substituição completa dos tributos atuais. Na prática, isso significa que a coexistência de tributos antigos com o IBS e a CBS aumenta a complexidade operacional, gera duplicidade de obrigações e eleva o risco de erros, autuações e litígios, especialmente em períodos híbridos de transição.
O ponto mais sensível para as transportadoras é a precificação do frete. A nova lógica tributária altera a forma como os tributos incidem sobre os custos da operação, o que exige uma revisão completa das planilhas de custo. Elementos como combustível, pedágio, manutenção, mão de obra e serviços terceirizados passam a ter impacto diferente na formação do preço do frete. Transportadoras que não ajustarem seus critérios de precificação correm o risco de operar com margens reduzidas ou de perder competitividade.
03 · Visibilidade da operação
Você sabe o que está acontecendo com cada veículo da sua frota neste momento?
Durante muito tempo, “visibilidade da operação” foi tratada como um benefício adicional, algo que as grandes transportadoras tinham e as menores aspiravam ter. Em 2026, isso se tornou o pré-requisito para tomar qualquer decisão relevante com velocidade suficiente.
A questão não é apenas saber onde está o caminhão. É saber se o motorista está dentro da jornada legal, se a rota escolhida passou por um ponto de risco, se a carga será entregue dentro do prazo contratado, se há uma parada não programada que pode sinalizar um problema. São informações que, sem sistemas adequados, chegam tarde.
O setor avançou muito em telemetria e rastreamento, mas ainda há uma lacuna crítica entre ter os dados e saber usá-los. Transportadoras que transformam informação de rastreamento em inteligência de gestão conseguem replanejar rotas em tempo real, antecipar conflitos de jornada, reduzir o tempo de espera em carregamentos e ter argumentos concretos em negociações com embarcadores sobre responsabilidade por atrasos.
A visibilidade também é central para a relação com o cliente. Embarcadores e varejos de grande escala cada vez mais exigem integração de sistemas e acompanhamento em tempo real como cláusula contratual. Transportadoras que não oferecem isso perdem contratos para concorrentes que oferecem.
04 · Desafios setoriais
O setor de transporte rodoviário de cargas avançou cerca de 7% em 2025, conforme dados da Confederação Nacional do Transporte, impulsionado pelo vigor do agronegócio, pela consolidação do e-commerce e pela maior integração entre mercados regionais e globais.
A atividade foi impactada por custos operacionais ainda elevados, especialmente combustíveis, manutenção de frota e encargos trabalhistas. Apesar de uma relativa estabilização inflacionária ao longo do ano, a margem das empresas seguiu pressionada, sobretudo entre os pequenos e médios transportadores.
O ambiente regulatório também segue pressionando. As multas aplicadas pela ANTT em relação ao piso mínimo do frete aumentaram, enquanto as incertezas sobre o seguro RC-V continuam afetando a operação, com dúvidas sobre critérios, fiscalização e disponibilidade de apólices no mercado.
Há também pressões do lado trabalhista. A PEC 22/2025, que trata da jornada e descanso dos motoristas profissionais, será uma pauta central em 2026, com as entidades buscando maior segurança jurídica para o setor. E a reoneração da folha de pagamento deve impactar adicionalmente os custos das transportadoras.
05 · Gestão de equipes
Falar de “gestão de equipes” no transporte é falar de motoristas. E falar de motoristas em 2026 é enfrentar um problema estrutural que nenhuma tecnologia resolve sozinha: o envelhecimento acelerado da categoria, a dificuldade de atração de novos profissionais e a crescente complexidade legal que envolve cada vínculo de trabalho.
A jornada do motorista é regulada por legislação específica, a Lei 13.103/2015, que define limites de horas de direção, intervalos obrigatórios, descanso entre jornadas e repouso semanal. O descumprimento dessas regras é risco direto de acidente, de passivo trabalhista e de processo judicial. Empresas que tratam o controle de jornada como burocracia, e não como gestão, acumulam silenciosamente um passivo que só aparece quando chega o processo.
A valorização dos profissionais será um ponto crítico em 2026. Com a entrada em vigor da nova NR-1, que amplia a responsabilidade das empresas sobre saúde mental e bem-estar, a gestão de pessoas ganhará mais relevância. Ambientes hostis, insalubres e sem preparo das lideranças deixarão de ser tolerados. A cultura organizacional será decisiva para atrair e reter talentos.
Os motoristas bem gerenciados, com jornada dentro da lei, comunicação clara e acompanhamento efetivo, produzem mais, faltam menos, se acidentam menos e ficam mais tempo na empresa.
06 · Otimização de despesas
Os três maiores custos variáveis de uma transportadora, combustível, pneus e manutenção, são invisíveis quando estão fora de controle, e extremamente perigosos para a saúde financeira da empresa.
Uma rota 15% mais longa que o necessário por desvio de risco ou por falta de planejamento não aparece como “despesa com rotas ineficientes” no balanço. Ela aparece diluída em litros de diesel. Um pneu que deveria durar 120 mil quilômetros e durou 80 mil não aparece como “manutenção por excesso de velocidade em rodovias ruins”. Aparece como troca antecipada.
A atividade foi impactada por custos operacionais ainda elevados, especialmente combustíveis, manutenção de frota e encargos trabalhistas, e a margem das empresas seguiu pressionada, sobretudo entre os pequenos e médios transportadores.
A otimização de despesas nesse contexto passa, necessariamente, por dados. Saber qual motorista consome mais combustível por km rodado, e por quê. Qual rota gera mais desgaste de pneus. Quais veículos estão entrando em manutenção corretiva com frequência incomum. Essas informações já existem na maioria das frotas, o que falta é a capacidade de lê-las e agir sobre elas antes que o custo aconteça.
Gestão de combustível por telemetria, monitoramento de comportamento de condução e manutenção preditiva deixaram de ser soluções de grande frota. Esses pontos se tornam necessários para que transportadoras de qualquer porte precise implementá-las, e o retorno, em termos de redução de despesas evitáveis, costuma ser imediato.
07 · Gestão de risco
Os números de 2025 trazem um dado positivo e um alerta. Em 2025, foram registradas 8.570 ocorrências de roubo de cargas no Brasil, representando uma redução de 16,7% em relação a 2024. Apesar da queda, o impacto financeiro permanece elevado. O prejuízo direto estimado chega a aproximadamente R$ 900 milhões, podendo ultrapassar R$ 1 bilhão ao considerar os efeitos indiretos, como aumento de custos operacionais, seguros e impacto no preço final dos produtos.
A queda nos volumes não significa que o problema está resolvido, significa que ele está se transformando. O crime vem se tornando cada vez mais sofisticado. As organizações criminosas atuam de forma estruturada e com inteligência, o que exige do setor e das autoridades uma resposta igualmente integrada, com uso de tecnologia, informação e cooperação contínua.
O perfil geográfico também mudou. A concentração dos crimes acontece principalmente na região Sudeste, que responde por mais de 80% de todas as ocorrências, com destaque para os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas o risco se distribui de forma mais dinâmica, com novas rodovias aparecendo no ranking e sinalizando o surgimento de novos pontos de atenção, exigindo monitoramento constante e ajustes estratégicos nas rotas e níveis de proteção.
Além do roubo, a gestão de risco no transporte cobre outras frentes, como acidentes, responsabilidade civil, conformidade com seguros obrigatórios e gestão da fadiga do motorista que é, ao mesmo tempo, um risco à segurança viária e um risco trabalhista.
08 · Indicadores de desempenho
A gestão por indicadores não é uma novidade no setor, mas a qualidade do que está sendo medido e a velocidade com que os dados se transformam em decisão ainda são muito insuficientes na maior parte das transportadoras brasileiras.
Os KPIs clássicos do transporte de cargas, custo por km, custo por tonelada, prazo de entrega, índice de avarias e eficiência de frota, existem porque funcionam. Mas muitas empresas os calculam mensalmente, analisam trimestralmente e ajustam quando o problema já está instalado. O movimento do setor em 2026 é em direção a indicadores em tempo real, custo por km calculado diariamente por veículo e por motorista, percentual de jornadas em conformidade, tempo de espera em carga e descarga por cliente, eficiência de rota comparada ao planejado.
Há também indicadores que a maioria das transportadoras simplesmente não calcula, e deveria. O custo de horas extras indevidas pagas por erros no controle de jornada, por exemplo. Ou o percentual de viagens com planejamento de descanso adequado versus viagens com risco de fadiga. Ou o índice de ocorrências por rota, cruzado com o tipo de carga transportada.
O desafio é a capacidade de transformar dados em informação estruturada, informação em análise e análise em decisão. Empresas que constroem essa capacidade criam uma vantagem competitiva que é difícil de copiar, porque não é um software. É uma cultura de gestão.
09 · Precificação
Nenhum outro tema concentra tantos pontos de pressão simultâneos no transporte de cargas quanto a precificação do frete. Combustível volátil, manutenção crescente, mudança tributária em andamento, piso mínimo de frete regulamentado pela ANTT, encargos trabalhistas em alta, tudo isso precisa ser absorvido em uma tabela que o embarcador vai questionar e que o concorrente vai tentar subcotar.
O primeiro problema é estrutural. Muitas transportadoras ainda precificam com base em custo histórico, sem atualização frequente e sem visibilidade sobre quais variáveis mudaram desde a última revisão. Quando o preço do diesel sobe, ou quando uma nova obrigação trabalhista entra em vigor, o impacto na margem acontece antes da tabela ser atualizada.
O segundo problema é a reforma tributária. Transportadoras que não ajustarem seus critérios de precificação para refletir tanto a nova carga tributária quanto o aproveitamento efetivo dos créditos correm o risco de operar com margens reduzidas ou de perder competitividade. Isso exige revisão de planilhas, atualização de contratos e, em muitos casos, renegociação com clientes que precisam entender a mudança.
Precificar bem no transporte de 2026 exige dados de custo atualizados, visibilidade dos impactos tributários, conhecimento das especificidades de cada segmento atendido e coragem para recusar contratos que não cobrem os custos reais da operação.
Os nove temas abordados aqui não são independentes, eles se entrelaçam. A infraestrutura precária eleva os custos de combustível e manutenção, que pressionam a precificação, que afeta a competitividade, que reduz a margem para investir em gestão de risco. A reforma tributária altera os custos da operação, que precisam ser refletidos nos indicadores, que guiam a tomada de decisão sobre equipes e rotas.
Compreender cada um desses elementos com profundidade, e entender como eles se influenciam mutuamente, é o que separa gestores que reagem de gestores que antecipam. E em um setor de margens comprimidas, antecipar é a única margem que realmente importa.
Esses temas vão muito além deste artigo.
Eles são a pauta do Transporte do Futuro.
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